O Jardim da Elis

Versão não autorizada pela mamãe

Um ano de Elis: o relatório que a mamãe não autorizou

Esqueça as flores, borboletas e abelhinhas. Aqui fala o papai, testemunha parcial, sem autorização da mamãe e com provas demais no rolo da câmera.

Deslize por sua conta e risco
  1. Prólogo

    Oito meses de falsa tranquilidade
    Naiara grávida diante da janela, antes da chegada da Elis
    Tudo tava ótimo e é aí que o problema se esconde.

    Silêncio que precede o estrondo

    Eis que a mamãe engravidou. E, até onde consta nos autos, não foi do Espírito Santo 😆.

    Os primeiros oito meses transcorreram com relativa tranquilidade. Mamãe se manteve ativa: jogou beach tennis até as últimas semanas, lavava a casa descalça e subia em banquinhos para tirar o pó das prateleiras mais altas.

    Enquanto isso, o papai fazia o papel de consciência no ombro: “Não faça isso”, “Desce daí”, “Toma cuidado...”. Nota do relator: papai sabe das coisas, mas raramente é ouvido.

    E é claro que deu merda. Tava fácil demais. Quando tudo parece tranquilo, desconfie. Não é paz. É o silêncio que precede o estrondo. Ou melhor, parafraseando O Rappa, o esporro.
  2. Preparativos

    Antes da chegada
    Quarto da Elis preparado com berço, bichinhos e decoração
    O cenário ficou pronto antes da protagonista.

    Montamos o cenário antes da protagonista

    Enquanto a mamãe circulava por áreas de risco e ignorava a recomendação básica do papai de permanecer deitada, imóvel e, se possível, enrolada em plástico-bolha, ele preparava a caverna para receber o neném.

    Foram semanas de trabalho árduo, com reforço da vovó Regina. E não era só escolher uma cor e pendurar enfeites: teve parede úmida, tinta descascada, massa arrancada, massa refeita, lixa, pintura... e, quando parecia pronto, repetir tudo outra vez.

    Mamãe aparecia de vez em quando, cansada e com a sobrancelha arqueada. Não precisava dizer nada. No máximo, soltava um grunido e o papai voltava imediatamente ao trabalho.

    À noite também não havia descanso. Era hora das aulas de gestação e parto. Como um único curso parecia pouco, papai, exagerado como sempre, fez dois.

    Terminou se sentindo praticamente obstetra, cheio de teoria, listas e certezas. A vida aguardava em silêncio a oportunidade de humilhá-lo.
  3. Aviso legal

    Antes que a mamãe leia
    Aviso importante!
    Se liga no aviso importante.

    Antes que você me julgue

    Atenção, leitor. Sim, este é um relato que ignora por completo as dificuldades de uma mulher grávida e foca em um marido chorão.

    O desabaf... o relato é meu. Escrevo o que eu quero, porque quem manda nessa bagaça sou eu.

    Né, amor? Tudo bem essa publicação? Posso postar?
  4. Plot twist

    Reta final da gravidez
    Registro hospitalar de um imprevisto ortopédico na reta final
    Um detalhe ortopédico que não constava no plano.

    Reta final pra mamãe / direto no reto do papai

    E o inesperado (não pra mim!!!) aconteceu!

    Havia uma sarjeta no caminho, no caminho havia uma sarjeta. Mamãe, carregando um monte de coisas, tropeçou na sarjetinha de apenas vinte centímetros e se quebrou.

    Papai morreu. Reviveu. Morreu de novo. Reviveu mais uma vez e chegou ao hospital carregando a mamãe arrebentada, com osso para fora.

    Por pouco não saiu de lá preso por tentativa de feminicídio. Uma das médicas simplesmente não conseguia acreditar que uma fratura em dois pontos da perna, incluindo uma exposta, pudesse ter sido causada por um tombinho na sarjeta.

    Era muito mais fácil olhar pro papai roliço, barbudo, careca e com cara de doido e concluir que ele era o responsável.

    Papai resistiu bravamente aos olhares inquisidores.

    Quando finalmente disseram que mamãe e Elis estavam fora de perigo e tudo parecia “sob controle”, ele pôde cumprir sua função principal naquela noite: chorar descontroladamente.

    No fim, tudo deu quase certo. Mamãe grávida só precisou ser entupida de antibióticos, passar mais de uma semana internada, enfrentar duas cirurgias e ganhar uma placa de titânio ocupando praticamente meia perna.

    Depois desse rolê, estávamos ainda mais preparados. O parto “normal” já nem assustava tanto a mamãe. Nosso jardim havia resistido, estávamos mais fortes do que nunca e prontos para qualquer coisa.

    Ou, pelo menos, era nessa baboseira conveniente que havíamos decidido acreditar.
  5. Sobrevivência

    Dias de hospital
    Comendo durante os bastidores no hospital
    O papai executando uma tarefa de altíssima complexidade: não desmaiar.

    A delicada missão do acompanhante

    Não me julguem pela foto. Eu fui parceiro. Instalei-me na poltrona ao lado da cama e permaneci firme enquanto a mamãe se recuperava da perna.

    Foram dias intermináveis dormindo torto numa poltrona e sobrevivendo à comida mais sonsa que a humanidade já teve coragem de servir. Na sobremesa, gelatina e banana. Em algum momento, eu já não sabia se estava acompanhando minha esposa no hospital ou cumprindo período integral na creche.

    Sim, a mamãe estava grávida, com a perna quebrada em dois lugares e uma placa de titânio recém-instalada, enquanto eu reclamava da banana. Eu avisei que este relato vinha de uma fonte nada confiável.
  6. Vida real

    Segunda-feira, 5h
    Ela fazia o impossível; eu tentava parecer útil.

    A parte em que a piada perde força por 3,4 segundos

    Finalmente a mamãe recebeu alta e pôde voltar pra casa. Enfim o conforto do lar, a tranquilidade, a paz...

    Uma semana depois, numa segunda-feira, às cinco da madrugada, ela acordou o papai:

    “Minha bolsa estourou.”

    E assim começava mais uma provação para este jardim.

    Foram vinte e quatro horas de parto normal, das dez da manhã de segunda até as dez do dia seguinte. Mas peraí. Como alguém tem um parto normal com uma perna moída?

    Pois bem, a mamãe é maluca e provou que sua doidera era mais forte do que qualquer bobagem, incluindo uma placa de titânio ocupando meia canela.

    A sala precisou ser completamente improvisada. Desmontaram a cama, a médica ficou sentada numa escadinha daquelas que toda avó tem na cozinha, outro médico segurava a mamãe de um lado e o papai, que já havia avisado que não queria nem cortar o cordão umbilical porque “não gostava de mexer com essas coisas”, acabou promovido a ajudante direto do parto.

    E quando digo direto, é direto mesmo. Direto demais. O papai viu coisas para as quais o olho humano não foi projetado e que jamais poderão ser desvistas.
  7. Estreia

    Depois de 24 horas
    A nova gerente chegou e assumiu a operação sem treinamento.

    Chegou a gerente

    Então ela chegou. Linda, perfeita. Foi um daqueles momentos que iluminam tudo e parecem trazer a resposta para as maiores questões da humanidade. A resposta, aparentemente, era uma pessoinha minúscula, enrugada e muito brava.

    Mas é claro que a mamãe ainda guardava uma surpresinha. Sério, essa mulher estava tentando me matar por infarto.

    Pouco depois de Elis chegar aos nossos braços, a pressão da mamãe despencou e o quarto virou uma cena de seriado médico. Não daqueles em que médicos e enfermeiros passam o expediente inteiro transando e curtindo. Era do tipo Plantão Médico mesmo.

    Em segundos, o espaço foi tomado por uns dez médicos e enfermeiros. Quando o papai conseguiu abrir os olhos direito, estava sentado numa cadeira, sozinho, com seu neném nos braços. Chão, paredes, pia: sangue.

    Ele só conseguiu pensar:

    “Fodeu. Pai viúvo.”

    Mas, mais uma vez, tudo deu certo. Mamãe se recuperou, Elis estava perfeita e o papai descobriu que a cabeça talvez fosse frágil, mas o coração era surpreendentemente resistente.
  8. Trégua temporária

    Primeiros dias
    Cinco segundos de paz cuidadosamente documentados.

    Primeiro ensaio, zero colaboração contratual

    Depois de perna quebrada, duas cirurgias, vinte e quatro horas de parto e o papai envelhecer uns quinze anos em poucos dias, o calendário informou que era hora do ensaio newborn. Porque descanso, aparentemente, era uma superstição.

    Elis dormiu, posou e fez cara de quem não tinha participação alguma no caos recente. A fotógrafa chamou de colaboração. Papai, que já conhecia a cidadã havia pouco tempo, chamou de trégua temporária.
  9. Letras miúdas

    Primeiras noites
    Dormindo como se fosse manter esse hábito em casa.

    Dormindo como se fosse manter esse hábito

    Observem a serenidade desta criança. O sono profundo. A paz. A promessa silenciosa de noites tranquilas.

    É golpe. Essa filmagem deveria vir com letras miúdas. Em casa, a mesma bebê administrava uma operação clandestina de atendimento noturno, com chamados imprevisíveis e nenhuma tolerância a atrasos. Papai caiu na propaganda porque estava cansado demais para ler o contrato.
  10. Documento oficial

    Família em operação
    Naiara e Ferreira segurando a Elis recém-nascida
    Dois adultos cansados e uma chefe perfeitamente tranquila.

    Registro dos sobreviventes

    Eis o primeiro retrato oficial dos sobreviventes. Mamãe com uma perna cheia de titânio e a resistência moral de quem já tinha vencido a sarjeta, o parto e um marido em permanente estado de alerta. Papai sorria porque, naquela altura, chorar em toda foto começaria a levantar suspeitas.

    Elis, a única pessoa realmente tranquila da imagem, parecia satisfeita com o desempenho da equipe até ali.
  11. Suporte técnico

    Primeiras semanas
    A primeira reunião técnica veio com luvas cor-de-rosa.

    A primeira reunião técnica

    Foi aí que me dei conta de que existe especialista para absolutamente tudo que envolve gestação, maternidade e recém-nascido. Tinha especialista pra apertar a teta da mamãe, pra alinhar a coluna do bebê, pra avaliar formato e tamanho de cabeça...

    Quanto mais eu aprendia, menos entendia. Hoje acho que precisaria viver umas três vidas só pra começar a compreender um pouco desse mundo.
  12. Interrupção editorial

    Zero relação com a timeline
    Amora, schnauzer da família, usando uma gravata rosa
    Não tem nada a ver com a cronologia. Tem tudo a ver com bom gosto.

    A Amora fica linda de gravata

    Esta foto não tem absolutamente nada a ver com a cronologia, com o nascimento da Elis ou com qualquer compromisso narrativo assumido até aqui.

    Mas eu queria mostrar como a Amora fica linda de gravata. Informação entregue. Não aceito questionamentos e agora podemos seguir.
  13. A gangue

    Unindo forças
    Elis bebê espiando por cima de um móvel
    Um é pouco... não é? Já tinha três cachorros e um coelho!

    Muito mais que camaradas

    Nesse registro vemos, talvez pela primeira vez, a formação da gangue. Love também faz parte dessa organização criminosa mirim, mas naquele dia ficou na portaria. A missão era usar o tamanho para intimidar qualquer xereta que ousasse interromper o planejamento maligno:

    “Hoje vamos deixar aqueles dois acordados a noite todinha. TODINHA! MUAHAHAHAHA!”
  14. Imagem pública

    Primeiros passeios
    Elis bebê usando óculos de sol cor-de-rosa
    A fama subiu rápido e os óculos acompanharam.

    Celebridade local em deslocamento

    Óculos grandes, postura séria e nenhuma declaração para a imprensa. A fama chegou antes dos dentes.

    Papai assumiu a função de segurança e balançador oficial pra naninha. Não recebe salário, mas pode continuar morando na casa.
  15. Governança

    Casa cheia
    Elis bebê deitada cercada pelos animais da família
    Quórum completo para decidir quem ficaria com o sofá.

    Reunião do conselho administrativo

    Elis ocupou o centro da reunião e os animais tomaram as cadeiras do conselho. Papai e mamãe ficaram fora do enquadramento, como convém aos funcionários que só executam as decisões.

    A pauta era curta: quem fica com o sofá, quem tem prioridade no atendimento e quantos petiscos cabem num dia. Tudo aprovado por unanimidade.
  16. Gastronomia

    Introdução alimentar
    Elis bebê com comida espalhada pelo rosto
    Barriguinha protegida contra assaduras.

    Comer é uma palavra muito limitada

    Mamãe pesquisava nutrientes, preparava tudo com cuidado e montava um prato digno de alguém que ainda acreditava no processo. Elis olhava pra tudo aquilo e pensava:

    “Legal, mas qual será o gosto da pomada de assaduras?”
  17. Investigação

    Pitaya, provavelmente
    Elis bebê com o rosto marcado por fruta vermelha
    A cena parecia grave. Era só fruta. Provavelmente.

    CSI: papinha

    A introdução alimentar foi uma farra à parte. A cada fruta e a cada legume, uma descoberta e uma careta diferente. Esses registros são verdadeiras esquetes e, sem dúvida, renderiam uma publicação inteira.

    Por enquanto, fica esta fotinha da Elis se lambuzando de sangue... ops, pitaya!

    Minha conclusão é que a tal introdução alimentar, aquela em que o neném deve “se virar” com pedaços de comida, é excelente: alimenta o chão, os animais, a máquina de lavar e, raramente, o bebê.
  18. Fiscalização

    Averiguação auricular
    Elis bebê recebendo um beijo da Love
    Cuidados intensivos!

    Auditoria interna. Literalmente.

    O departamento canino detectou uma possível irregularidade e iniciou uma averiguação profunda do ouvido. Não sabemos exatamente o que procurava, mas a inspeção foi minuciosa, sem mandado e com excesso de saliva.

    Nessa casa, consentimento e controle sanitário ainda são conceitos em desenvolvimento.
  19. Plantão

    Era da mamadeira
    Elis bebê tomando mamadeira
    Cardápio limitado, atendimento em tempo integral.

    Open bar com regras rígidas

    Finalmente chegou a era da mamadeira. Mamãe já não aguentava mais controlar cada coisinha que comia, cada remédio que tomava e quais cremes ou pomadas eram permitidos durante a amamentação. Papai, por sua vez, já não aguentava mais a mamãe sóbria. Não foi com essa mulher que ele se casou!

    Com a mamadeira no comando, tudo voltou ao normal. Ops... ao novo normal 😂
  20. Pesquisa de campo

    Teste oral
    Elis bebê levando um objeto à boca
    Tudo é comida até que um adulto prove o contrário.

    Tudo é comestível

    Elis aprendeu direitinho com Love, Amora e Ameixa: se existe, é de comer.

    Se não for, a descoberta acontecerá tarde demais.
  21. Nova temporada

    Antes das palavras
    Uma produção longa, barulhenta e com saliva em todas as cenas.

    Onomatopeia com personalidade

    Então começaram os aprendizados vocais. Antes das palavras vieram os testes de som: estalar a língua, bater no céu da boca, fazer caminhãozinho e produzir uma coleção de barulhos que nenhum adulto saberia descrever, mas que ela repetia com precisão científica.

    Parecia, e ainda parece, um Minion tentando conversar.

    No começo, incentivávamos porque era engraçado e fofo. Depois descobrimos que um bebê pode repetir o mesmo barulho algumas centenas de vezes sem demonstrar o menor sinal de desgaste.
  22. Onde está a Elis?

    Engatinhou. Ferrou.
    Elis bebê olhando para a câmera com a língua de fora
    Precisamos cercar a casa!

    Saudade de quando ela só rolava

    Antes de Elis aprender a engatinhar, vibrávamos a cada tentativa. Chamávamos, incentivávamos, batíamos palmas e comemorávamos qualquer centímetro conquistado.
    Nessa fase, ela já atravessava a casa por conta própria e nós sentíamos saudade do tempo em que o bebê só rolava e ainda podia ser encontrado na mesma área em que havia sido deixado.
  23. Autonomia e desespero

    Atualidade
    Ela já circula como proprietária. Nós seguimos pagando as contas.

    Independência quase sempre supervisionada

    Finalmente chegamos à atualidade. Um bebê cheio de energia, que engatinha na velocidade de um Mustang e avança com a determinação de um professor universitário de esquerda.

    E não bastava engatinhar. Agora a bichinha já fica de pé apoiada em objetos, inclusive alguns que definitivamente não deveriam servir de apoio. Também ganhou um andador maluco: agarra-se a ele e dispara pela casa, atropelando rabos desavisados e ignorando qualquer regra básica de circulação.

    Nós seguimos atrás, removendo quinas, fios, objetos pequenos e qualquer esperança de sentar por cinco minutos. Ela conquista independência. A nossa diminui na mesma velocidade 😅
  24. Pós-créditos

    Quase um ano
    Quando a realidade já não dava conta, entrou a pós-produção.

    Quando a realidade pediu efeitos especiais

    E é isso, pessoal.

    Faltaram acontecimentos importantes nesta timeline? Muitos.
    Fui imparcial no relato? Nem um pouco.
    Mas só trouxe verdades, cuidadosamente selecionadas por uma fonte nada confiável e organizadas para favorecer o papai.

    Elis fará um ano. Mamãe sobreviveu à sarjeta, ao parto e ao marido. Papai sobreviveu aos sustos, às madrugadas e às sobrancelhas arqueadas da mamãe.

    Foi confuso, cansativo, caro, barulhento e muito melhor do que qualquer coisa que a gente pudesse ter planejado.

    E, se este foi só o primeiro ano, talvez seja prudente aumentar o espaço do servidor. Material pros próximos capítulos não vai faltar.

Fim do relatório. Por enquanto.

Ela fez um ano. Nós temos álibi.

24 capítulos, 2 adultos cansados e nenhuma neutralidade jornalística. Responder ao convite